Mistérios da Fé

por Susana Lopes

 

Quem de nós nunca ouviu falar do limbo? Um suposto local remoto onde as almas podem ser enviadas após a morte. Pelo menos aqueles de nós (como eu), que tiveram a oportunidade de crescer num meio rural, onde velhas de bigode espesso insistem em dar beijos lambuzados na cara das criancinhas, já ouviram com certeza falar do limbo. Mas para os mais alheios aos trâmites da fé, aqui vai uma breve explicação. Ora, o limbo é, segundo esse oráculo chamado Wikipedia, um lugar fronteiriço entre o céu e a terra, mas que ninguém sabe muito bem onde fica. Um bocadinho à semelhança daquilo que acontece com Arruda dos Vinhos.

 

É feita ainda a distinção entre dois tipos distintos de limbo, um deles chamado o Limbo dos Pais, que é visto como um estado temporário em que apesar de a pessoa ter morrido nas boas graças de Deus, não pode ascender ao céu até à redenção de Jesus Cristo. Situação especialmente frequente nas épocas de downsizing, servindo de justificação para a não contratação de pessoal. Que de qualquer dos modos já é de si reduzida, que actualmente para ascender ao céu, só com recibos verdes.

 

Já a segunda forma de limbo é chamada de Limbo das Crianças, que se refere ao local onde ficam as criancinhas que morreram antes de ser baptizadas. Provando-se assim, que levar com água na fuças, de um gajo vestido de saias pode fazer de facto toda a diferença.

 

Mas não nos desviemos do essencial. Ainda que com estas explicações, de alguma forma o limbo parece algo demasiadamente vago para ser totalmente compreendido. Havendo uma grande especulação em redor daquilo que é, onde é, e que tipo de pessoas vão lá parar. É pois no meio de toda esta reflexão, com um descafeinado já bebido numa tasca deste nosso Portugal, que a luz da sabedoria se abateu sobre mim. Lembrei-me então de outro tipo de limbo…a dança onde pessoas desafiam o seu equilíbrio e o poder dissuasor das artroses e passam por debaixo de um pau. Parece não fazer sentido? Sim, talvez não faça. Mas esse não é o cerne da questão. O que realmente importa é que segundo a minha teoria, o limbo religioso e a dança do limbo, são praticamente a mesma coisa. Ora vejamos, acham mesmo que Jesus Cristo ia-se dar ao trabalho de rever todas as candidaturas que enviam para o céu e deliberar sobre a possibilidade de redenção ou não de cada uma delas?! Se há uma coisa que aprendi nos meus extensos anos de catequese é que o reino celestial e a administração pública têm muito mais em comum do que à partida se julga. Ou não estivesse o Director Geral (Deus) sempre incontactável e haver uma lista de 10 requisitos praticamente impossíveis de se cumprir para ir lá ao céu tratar do que quer que seja.

 

Mas como eu ia a dizer, tal esforço logístico não seria possível para a administração celestial, como tal, acredito piamente (desde há cerca de 2h atrás) que o método de selecção para as pessoas do limbo irem para o céu, é através nem mais nem menos do que a dança do limbo. O que para além de não dar muito trabalho, também é extremamente barato. Ou seja, quem conseguir passar debaixo do pau entra, quem não conseguir, tem toda uma eternidade para continuar a tentar. Aliás acredito mesmo que todo o limbo se baseia exclusivamente nisto, e mais, que as pessoas que entram no limbo recebem imediatamente colares de flores e saias havaianas, começando a sua árdua missão de passar para “o outro lado” ao som de uma qualquer música tropical.

 

Mistério da Fé.

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