Educação Sexual

por Sílvia Robalo

No campo da sexualidade pode e deve distinguir-se aquilo a que se chama informação sexual e educação sexual propriamente dita. A informação sexual é objectiva, científica, racional, e consciente, enquanto a educação sexual, de que tanto se fala hoje, é um processo que além da informação tem necessariamente outros componentes subjectivos e ideológicos. E é sobre esta educação sexual inseparável da educação em geral o objecto desta crónica.

Um dos grandes impulsos para a moderna educação sexual foi a revolução sexual em Maio de 1968. Um dos seus slogans mais famoso era ”libertem a palavra e libertareis o sexo”. Percebeu-se, então, que a erotização que tinha invadido a vida contemporânea levava a um precoce despertar da sexualidade, sem que, entretanto, o homem se tivesse educado sexualmente.

Os pudores e os tabus

Apesar do grande papel que a sexualidade tem na vida de todos os seres humanos de qualquer idade, raça ou religião, até há poucos anos não havia praticamente na nossa sociedade educação sexual, se é que hoje existe mais do que informação sexual. Um pudor hipócrita e irracional parece dominar este tema, especialmente quando se fala em educação sexual nas escolas!

Para alguns a educação sexual tem sido acusada de pôr em causa os valores morais estabelecidos, de retirar poesia à sexualidade (imagine-se!), e ainda de ao satisfazer a curiosidade aumentar nos jovens a vontade de experimentar. Existem ainda por aí muitos adultos (e alguns são pais, o que é grave!) que receiam que a educação sexual leve os jovem até fronteiras mais avançadas, diferentes daquelas que os seus próprios conceitos (e preconceitos) morais aconselhariam!

Esta argumentação baseada no medo (apesar de não se perceber como ainda se pode recear A EDUCAÇÃO, ainda que sexual) facilmente cai do seu trono falacioso. Isto porque há décadas que se estuda a repercussão desta educação sexual nas massas jovens e quais as suas consequências.

Sobretudo no estrangeiro estes estudos são contínuos e de fácil acesso. Por exemplo, em investigações levadas a cabo em liceus franceses verificou-se que, ao contrário do que se temia, nem as relações sexuais nem a masturbação aumentam nos jovens que têm acesso à educação sexual. E, os valores socioculturais neles inculcados pela família não são alterados excepto no que diz respeito à contracepção e ao aborto.

Também nos Estados Unidos se comprovou há mais de uma década que, nos jovens que tinham recebido educação sexual, a iniciação da vida sexual fora mais tardia e o número de abortos provocados menor!

Perguntas e respostas

Aceite como necessidade imperiosa, uma boa educação sexual segundo a Organização Mundial de Saúde parece atrasar o começo das relações sexuais. Os problemas que agora se levantam são: qual a sua técnica específica e qual a idade ideal para se educar sexualmente alguém?

Parece-me que quando falamos destes fenómenos humanos o conceito de “ideal”é ilusório e muitas vezes até perigoso porque pressupõe que todos atinjam simultaneamente os mesmos estádios de desenvolvimento e maturidade física e emocional. Ora sabemos hoje que o crescimento de cada ser humano (como único) está longe de ser cronometrável! Mas, porque é preciso concretizar, no que diz respeito á idade penso que educação sexual quanto mais cedo melhor! Se se vai esperar pelas perguntas, as respostas pretendidas atingirão o alvo tarde demais! Isto porque os mais jovens e até as crianças pressentem os tabus sexuais e são por eles amordaçadas, o que atrasa e cala as perguntas, mas as dúvidas subsistem. Como tal, entretanto constroem-se fantasias falsas ou pior: recorre-se a companheiros tão ignorantes como elas próprias.

A educação sexual, as crianças e os pais  

Na realidade, a educação sexual não deve estar só estudada e adaptada ao adolescente. Também as crianças precisam e querem saber mais. As interrogações acerca da sexualidade surgem na criança desde muito cedo, mesmo antes da idade escolar.

Competiria aos pais a iniciativa das primeiras conversas. No entanto, também a sua posição é ingrata, porque eles próprios não estão muitas vezes preparados para isso, têm conceitos confusos, não encontram as palavras próprias. O constrangimento é para muitos um motivo mais que suficiente para se cingirem ao silêncio. Importante, parece-me, é que a educação sexual comece de tenra idade adaptando-se, obviamente, os conteúdos às idades escolares dos jovens e das crianças.

Sexo ou amor?

 Acho que é cada vez mais óbvio que, apesar de toda a informação que circula a volta da educação genital, muitas vezes os jovens querem mais informação do ”porquê” das relações sexuais do que do ”como”. Não se deve ter medo de falar de prazer, e deve vincar-se bem desde as primeiras informações que toda a vida sexual está intimamente ligada ao amor e que não há prazer completo sem esta afeição recíproca.

É preciso que muitos adultos que temem fervorosamente a educação sexual nas suas criancinhas percebam que o sexo e a reprodução no homem e na mulher são bem mais admiráveis e cativantes do que nas histórias da cegonha, da couve, e todas aquelas barbaridades meio místicas e misteriosas. Até porque o amor, o prazer e o sexo são afinal fenómenos da vida, bem humanos, bem terrenos!

Para onde caminha Portugal nesta matéria?

Em Portugal a verdade parece ser a de que ninguém se sente capaz para assumir a responsabilidade da educação sexual. Não se sabe se são os professores, os pais, ou até enfermeiros ou psicólogos que lá de quando em vez vão às escolas informar que existe uma “coisa” chamada Planeamento Familiar, onde até se oferecem uns preservativos à “borlix”! Ideia bonita, a da educação sexual no nosso país!

Realmente ninguém é o educador fundamental, mas o importante é que se criem verdadeiras condições para que seja o jovem a escolher aquele que, no momento, é o mais importante e lhe é mais útil. Mas, para que o jovem verdadeiramente tenha hipótese de escolha deve aqui intervir a escola que é afinal o local onde ele passa grande parte do seu tempo, onde ele se desenvolve intelectualmente e emocionalmente!

Claro que a educação sexual deve obedecer a certas regras e programas definidos para cada público juvenil que visa atingir, e o objectivo desta deve passar pela informação clara e objectiva dos riscos que cada um corre com o início da actividade sexual, mas na composição desta ideia não pode ser descartada a necessidade de passar uma mensagem de que a entrega sexual e o prazer advindo daí passa necessariamente por um acto pleno de maturidade, realmente de todos ao actos de prazer que se podem ter a solo, o amor é o único que exige outro mas tudo dependerá da qualidade da relação que se estabelece com o outro!

Acredito que se pode aprender a viver, também como se aprende uma ciência, e a educação sexual é certamente um marco fundamental dessa aprendizagem, porque a sexualidade no homem não é apenas um fenómeno biológico mas também um fenómeno afectivo, emocional, intelectual e social.

Uma Resposta

  1. Minha cara amiga, de facto a questão da educação sexual é muito controversa. Ainda não foi assim à tanto tempo que frequentei o secundário e me lembro bem que se falava que seria no ano seguinte que se teria aulas de educação sexual (era sempre no ano seguinte)…mas tá claro que isso nunca aconteceu. Na verdade, há outras formas até bem mais eficazes para se tratar de assuntos que digam respeito à questão da sexualidade, que não sejam aulas infrigidas aos alunos confinados a uma sala de aulas, onde muitas vezes não são criadas condições para assegurar o interesse e a motivação por parte dos remetente dessa informação, contudo essas outras maneiras possíveis de se implementar métodos para a educação sexual são quase ou totalmente aniquiladas bem antes de terem um inicio.
    E porque é de princípios de que se fala..porque não se chamar formação sexual em vez de educação sexual?
    Numa época em que ninguém ensina nada a ninguém e todos somos autores do nosso próprio saber, a forma como o empreendemos e como gerimos o nosso conhecimento…não seria mais correcto falar-se em formação sexual?Na prática..em matéria de sexualidade não é isso que acontece?Afinal continua-se a verificar que a tão falada educação sexual continua a não passar de uma utopia que nunca foi verdadeiramente posta em prática, ou mesmo que se verifique nunca foi tão eficiente como se pretendia, assim apesar da grande informação disponível para qualquer jovem, é ele que gere o conhecimento que tem ou quer ter em relação à sexualidade, que procura aonde e como adquirir esse conhecimento.Portanto, parece-me que numa sociedade onde os processos educacionais passaram a acentar num modelo individual, onde são utilizados métodos activos de ensino e ,sobretudo, numa autoformação…penso que o termo “educação sexual” está ultrapassado e deveria ser substituído por formação sexual.
    Apenas uma opinião…
    Gostei muito do artigo…continua a desenvolver novas ideias.
    Com um grande beijinhos,
    Tânia Fino

Deixar uma Resposta