No mês da juventude, a tradição aliou-se à originalidade e irreverência em mais uma iniciativa da AJAV
por Cátia Teixeira
No dia 8 de Março, o pavilhão Multiusos de Arruda dos Vinhos acolheu o Festival 100% Original, 8.º encontro de bandas promovido pela Associação, onde quatro grupos de música original proporcionaram aos presentes uma mistura de ritmos e estilos. Phazer, Brent, Pit Noise e Jah Vai compuseram o cartaz.
“O objectivo da Associação passa pelo desenvolvimento cultural e recreativo e pela promoção de actividades para o público jovem, numa resposta à política de juventude que procura aproximar a autarquia da população juvenil. Os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas mas não deixa de ser ambicioso haver um festival com quarto bandas tão diferentes”, explicou o presidente da AJAV, Telmo Lopes. “Tentámos marcar a diferença e abranger vários estilos, conscientes de que as pessoas não têm muita curiosidade de ouvir o que não passa na rádio. São bandas originais e quase desconhecidas mas acreditamos que possa ser um bom espectáculo”, acrescentou Luís Carlos.
Do Hard-Rock ao Reggae houve som para todos os gostos mas no meio de tanta diversidade acabou por ser fácil encontrar, entre os artistas, o mesmo sonho, a mesma ambição e as mesmas contrariedades.
Uma mistura de linguagens
Agradados com a iniciativa, e imediatamente antes de abrirem o concerto, os Phazer contaram-nos a sua história. Tal como no palco, Miranda foi a voz do grupo: “Os Phazer surgiram de contactos ocasionais na Internet. Nunca imaginámos que daria no que deu. Juntámo-nos por diversão mas às tantas achámos que as músicas tinham piada e pensámos: porque não gravar um disco, porque não passar na rádio?”. E assim aconteceu. Desde Junho de 2004, e já com o EP “Revelations” lançado na FNAC, que os quatro elementos da banda percorrem o país à procura do reconhecimento que só o tempo permite adquirir.
Com o apoio do público e boas críticas na imprensa, os Phazer mostram em palco uma mistura de linguagens, inspirada em nomes como Metálica, Faith No More e Led Zepellin, mas que eles próprios criam de forma natural e sem qualquer apoio exterior. “Só contamos connosco próprios, com os nossos recursos. Fizemos um investimento inicial, agora os Phazer já se auto-sustentam mas não dá para pôr comida na mesa”, explicou Miranda que já só pensa no lançamento do segundo disco, que deverá ser gravado este verão e distribuído através de uma editora internacional.
A era do Brent
Com uma história semelhante, os Brent abriram-nos as portas do camarim e mostraram-nos o ambiente descontraído que antecede cada espectáculo. Juntos há quatro anos, Kimbas, Sandro, Queirós e Kabu procuram “descomplexar a música”, tendo como grande referência Rafael Toral, compositor português reconhecido no estrangeiro. “Esta é a era do Brent (crude), o mundo vive em função dele, e nós, ao invés, adoramos tudo o que é genuíno”, disse Kimbas, explicando que o grupo tenta, através da música que cria a partir de tudo o que os rodeia, chamar a atenção para a necessidade de não nos deixarmos determinar pelas situações da vida moderna.
Com o primeiro EP gravado em Novembro de 2007 e um tema associado à personagem de Inês Castel Branco na recente novela da RTP “Vila Faia”, os Brent buscam agora um projecto mais sólido. “Estivemos três anos em banho-maria, e temos sido muito calões para procurar apoios e nos auto-promover, mas vamos procurar porque o objectivo é sermos conhecidos internacionalmente e tocar com o Sting”, ironizou Kimbas.
Mais a sério, o grupo de raízes arrudenses explicou que as críticas têm sido positivas embora considere que o público português “é difícil de conquistar”. “Temos bons músicos, o que acontece é que, só depois de se ter sucesso lá fora, é que somos reconhecidos cá”, lamentou Sandro, reforçando, contudo, que todos eles têm profissões para além da música mas são cada vez mais músicos do que qualquer outra coisa.
Um sonho de sempre
Motivado pela mesma paixão pela música, embora ciente das dificuldades do meio, está também Johny, o vocalista dos Pit Noise, para quem o curso de veterinária poderia ser apenas um hobbie já que o sonho passa mesmo pelos palcos. É com imensa simpatia que Johny nos revela os pormenores que fazem a música do grupo da Margem Sul: “Somos seis pessoas muito diferentes, mas com o mesmo sonho… E as nossas músicas são também bastante diversificadas porque umas puxam mais ao gosto de uns elementos e outras ao de outros. Por enquanto somos uma soma de partes, andamos à procura da essência do conjunto porque nascemos de uma mescla e porque os gostos musicais de hoje passam por não se ouvir só uma coisa… É a cultura do mp3”, expressou o cantor para justificar a variedade de temas que haviam de acabado de tocar. “Temos tido boas observações, embora às vezes nos digam que somos verdinhos, mas tentamos tirar o lado positivo das críticas e dar mais maturidade ao nosso som”, reforçou Johny lembrando o EP lançado há dois anos, aquando do início da banda.
A prová-lo está o 11.º lugar que os Pit Noise conquistaram recentemente num concurso internacional, entre 400 bandas. Um sucesso que advém unicamente do esforço do grupo. “Uma banda recente tem uma grande luta pela frente porque não há grande apoio nem receptividade por parte do profissional da música. É difícil encontrar apoios em Portugal. Tirando este tipo de iniciativas, a divulgação é muito limitada”, concluiu Johny salientando que, ainda assim, é da música que quer viver… um dia.
A união da diferença
A fechar o festival, houve ritmos mais leves mas não menos interventivos. Os Jah Vai, que já vincaram o seu espaço no meio do reggae com o EP “Aguenta a Pressão”, inundaram o pavilhão com aquilo que mais os caracteriza: a diferença cultural. “Mais do que um projecto, nós somos uma família e tentamos abranger extractos sociais distintos porque estamos abertos a conhecer este Portugal multicultural. É a diferença que nos une e a música dos Jah Vai é uma salada”, esclareceu o vocalista Marcus. “Jah Vai é mensagem e diversão e é também a banda que não se vende… somos livres, não nos rebaixamos… já rejeitámos bons concertos e editoras por não acreditarmos neles”, confessou Kikas, um dos fundadores da banda de Loures, para quem o respeito é o principal valor de vida.
No final, entre copos e ofertas, o público estava animado. “Gostei muito. Vim de Oeiras porque já conhecia um dos grupos mas fiquei agradavelmente surpreendido com as restantes bandas. A música que se faz em Portugal está no bom caminho”, disse Tiago, aplaudindo a iniciativa. Já Renata, preferiu chamar a atenção para a falta de colaboração da população: “É uma pena não ter muita gente porque as pessoas criticam quando não se fazem as coisas mas quando se fazem não ajudam e não aparecem”.
Felicitações e críticas à parte, o festival contou com a presença de cerca de 300 pessoas, de várias idades, e com o apoio da Câmara Municipal e Junta de Freguesia de Arruda dos Vinhos, com o patrocínio do “Instituto da Droga e da Toxicodependência”, “Crédito Agrícola”, “Intermarché”, “Sanap”, “Jorge Cardoso” e “O Polícia” e ainda com a colaboração de vários sócios da Associação e voluntários.
De acordo com Sílvia Robalo, outro elemento da direcção da AJAV, o balanço é positivo. “Apesar dos percalços que muitas vezes encontramos na organização deste tipo de eventos, onde as estimativas são sempre incertas e arriscadas, a nossa política tem passado pela persistência num projecto de continuidade. E acreditamos que no futuro, teremos cada vez melhores resultados”.
No concerto, onde tanto as bandas convidadas como os elementos da organização deram o seu melhor, pelo menos a vontade de marcar a diferença atingiu os cem por cento.
Arquivado em: Reportagem

olá, parabéns pelo blog…
a continuação deste encontro de bandas é de saudar, tendo em conta que esta iniciativa já perdurava nas actividades da AJAV desde o seu inicio.
Julgo que a questão de comparecerem pouco público neste tipo de concerto é um pouco subjectivo, pois entre 200 a 300 pessoas não são assim tão poucas pessoas. O que acho é que o local onde é feito o festival é que é grande de mais, o que sinceramente em Arruda não vejo outro local com melhores condições. Penso que o Pavilhão Multiusos (se é mesmo Multiusos) deveria estar preparado para ser dividido em zonas.
Um abraço.
´Carvalho, nº15